O dia que eu pari a mim mesma

Essa é uma tentativa de colocar em palavras uma experiência que não pode ser explicada mas que quem tem olhos para ver consegue compreender. O trabalho de criação intuitiva de imersão que @ra_paixao faz é magnífico. Para mim um divisor de águas.

Foi assim de supetão. Uma mensagem: você pode amanhã? E eu podia. Não estava nos planos para já, mas era um desejo que nasceu da vontade de mudar e de experimentar o trabalho único dela. E casou de ser em um momento mais do que especial, bem na véspera do meu aniversário.

Quando conheci Raíssa eu fique encantada com sua generosidade e abertura. Aquela pequena é tão poderosa quanto suave. E aos poucos fui entendendo que seu trabalho é mais do que tatuar.

É um rito de passagem.

Começamos tomando um café e ela me perguntou como eu estava. E deixou que eu falasse da minha história, dos meus sonhos, dos meus medos e fracassos. Quando dei por mim já havia revelado tudo. E ela escutava atenta. Perguntando uma ou outra coisa para investigar um pouco mais, como uma terapeuta atenta que escuta nas entrelinhas o que não está sendo dito.

Então veio a música e enquanto o incenso enchia o ar de perfume, ela reunia seus instrumentos para uma meditação. Cercadas de plantas, cristais e gatos, eu mergulhei em um lugar muito antigo e compreendi que o que estava por vir não era algo consciente, não era um ornamento para o corpo, era uma experiência de vida.

Raíssa preparou um banho de ervas e eu me senti acolhida, amada, compreendida, respeitada e entregue.

E então a mágica começou a acontecer. Eu ali observando seus olhos atentos avaliarem formas e traçar os primeiros riscos direto da pele, criando um desenho único em meu peito. Eu estava entregue e sentia uma alegria profunda. Sentia admiração pela artista que estava diante de mim criando e dançando e sentido o fluxo das energias que estavam presentes.

Percebia as lágrimas escorrerem de seus olhos enquanto ela desenhava e mudava o rumo do traço porque sentia que nenhuma lógica explicava o que ela estava intuindo. E eu apenas estive ali presente e entregue.

Quando terminou de desenhar ela me disse que nada daquilo era definitivo e que ia trazer o espelho para que eu pudesse ver. Eu segurei nas suas mãos e disse que eu iria olhar sim, mas que naquele momento eu poderia deitar na maca e permitir que ela traçasse sua arte em mim sem nenhuma dúvida de que era exatamente o que eu queria e precisava. Sentia tanta confiança no que estava experimentando ao vê-la trabalhar que faria a tatuagem às cegas sem uma sombra de dúvida.

E tudo o que disse ao ver o desenho foi: pode começar!

O que veio a seguir foram horas de dor e alegria, entrega, riso, choro e transformação. Eu sentia meu peito sendo aberto literalmente. Sentia que a mulher que estava aprisionada por tanto tempo dentro de mim finalmente encontrava uma brecha para sair e brotar. E ela veio inteira em seu esplendor.

Experimentei um processo de renascimento tão intenso e profundo quanto quando pari meu filho.

Eu pari a mim mesma ali naquela mesa pelas mãos habilidosa dessa bruxa que tem o poder de encontrar a sua essência e trazê-la á tona em forma de arte. E tudo isso era acompanhado pelo olhar atento e amoroso de Marcela, sua aprendiz, que foi a melhor doula que eu poderia ter. Sem as suas mãos e a sua presença talvez eu não tivesse força para atravessar o portal por completo e chegar do outro lado com o peito aberto em flor.

Gratidão eterna, Rá, por esse presente maravilhoso. Seu trabalho é potente e transformador. Que muitas mulheres possam renascer pelas suas mãos. Gratidão Marcela, por ficar ao meu lado até o fim compreendendo o que estava acontecendo e garantindo que eu não me perdesse de mim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *