O herói – uma metáfora para a individuação.

 Esse é o segundo capítulo do meu TCC e também foi reproduzino na integra.

Apenas retirei as formalidades das normal ABNT.

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Quando pensamos em nosso herói preferido, independente de qual seja a nossa escolha, sua história é sempre uma aventura. Com todas as peculiaridades individuais, a semelhança entre os percursos é clara. A sequência de eventos que acontecem na trajetória de um herói é comum em muitas culturas e diferentes épocas. O proeminente mitólogo Josef Campbell, dedicou uma parte da sua obra ao estudo do tema arquetípico do herói. Em O Herói de Mil Faces, ele demonstra quão semelhantes são os protagonistas das religiões, contos de fadas, mitos e do folclore em variadas culturas, em diferentes épocas, para diversos e distintos povos por todo o mundo.
No mito o herói é o que vence o dragão, e não exatamente o que é devorado por ele. E no entanto os dois têm de haver-se com o mesmo dragão. O herói também não é aquele que nunca se encontrou com o dragão nem aquele que, tendo-o visto uma vez, afirma depois nada ter visto. Da mesma forma descobre e ganha o tesouro, “aquela preciosidade difícil de conseguir”, somente aquele que ousa a confrontação com o dragão e não perece. Tal pessoa tem verdadeiro direito à autoconfiança, pois enfrentou a profundeza escura do próprio si-mesmo e desse modo conquistou para si o seu si-mesmo. Esta experiência interna lhe dá força e confiança, a πίστις (pístis, confiança) na capacidade de sustentação do si-mesmo, pois tudo o que o ameaçava provindo do interior, ele o tornou coisa própria sua. (JUNG, Vol 14/2 par. 410)
O herói quase sempre teve um nascimento difícil. Seus pais poderiam ser incapazes de conceber. Talvez sua mãe tenha recebido a visita de seres mágicos anunciando a chegada do filho. Outra situação comum é a morte dos pais fazendo com que o pequeno herói fique órfão e seja criado por pais adotivos. Outras vezes, mesmo que seus pais não tenham morrido, a criança é afastada deles e criada por outras pessoas que não sabem ou não relevam a sua verdadeira origem. Seus pais adotivos podem ser bons ou ruins e há também uma série de histórias nas quais a criança é criada por animais, fadas ou outros seres fantásticos.
Ainda jovem, o herói é reconhecido pelos seus talentos. Revelando habilidades e poderes especiais, encontra sempre bons professores ou amigos fiéis que o auxiliam a desenvolver esses dons. Esses professores e amigos podem ser humanos, animais ou seres fantásticos.
Ao atingir uma certa idade, o herói torna-se inquieto, deseja descobrir sua verdadeira origem, percebe-se curioso por explorar o mundo ou recebe uma missão e sai para matar um dragão, salvar uma princesa, achar um tesouro ou lutar numa batalha. Lança-se numa grande aventura cheia de mistérios na qual tem que superar muitos obstáculos e provar sua coragem e bravura.
O desfecho também é sempre parecido. Depois de uma grande batalha, de um feito heróico, o jovem perde suas características infantis, torna-se um homem, casa-se com uma linda princesa, ganha um tesouro. É reconhecido por sua conquista.
Jung resume os feitos do herói e descreve-o como o ciclo do sol em Símbolos da Transformação. Ao analisar os sonhos de Miss Miller ele introduz o tema da trajetória solar como uma metáfora para o movimento da energia psíquica que precisa ascender, descender, para só então novamente voltar a ascender. Essa referência simbólica ao movimento do sol traduz as experiências de renovação psíquica que acontecem no processo de individuação. O herói, sua trajetória e aventuras são vistas como um símbolo desse processo de busca da totalidade.
O processo de individuação é um processo de diferenciação psicológica composto por etapas que são representadas simbolicamente pela trajetória do herói. Campbell resume essa trajetória com o seguinte gráfico:

(imagem do livro O PAI E A PSIQUE, de Alberto Pereira Lima Filho)

 

Podemos ver que todos as grandes transformações por que passamos são impulsionadas pela busca heróica de nos separarmos do coletivo e nos tornarmos um indivíduo. Assim a consciência do ego precisa ser separada da totalidade da psique para que possamos reconhecer-nos como uma totalidade enquanto indivíduos.

O herói enquanto arquétipo[1] é o que dá força ao indivíduo, que dá estrutura ao ego para enfrentar situações novas, adversas, dificuldades e até mesmo impedimentos em sua trajetória.

O arquétipo do herói impulsiona o indivíduo para uma iniciação, para que haja uma separação do mundo materno, inconsciente e siga em direção a uma consciência autônoma. É preciso sacrificar a infância, as facilidades de ser prontamente atendido em todas as suas necessidades, para nos diferenciarmos. Empreende-se uma busca por uma identidade. Para tanto é necessário um distanciamento das imagens parentais que passam a representar um mundo limitado. Nessa primeira etapa, a libertação da consciência do eu – ego – se dá pela separação do domínio da grande mãe.
Ego, para a psicologia analítica, é o sujeito da consciência que tem a impressão de conhecer a personalidade total quando, de fato, conhece apenas seus próprios conteúdos. Ao identificar-se com os conteúdos do inconsciente, o ego dá mostras de sua fragilidade. Um ego pouco estruturado enfrenta muitas dificuldades em seu processo de individuação. De acordo com o Dicionário Junguiano, ego ou eu é o termo “usado por Jung no significado específico de complexo funcional de representações que constituem o centro da consciência e que o sujeito experimenta como idêntico e contínuo consigo mesmo” (Pieri).

 

A jornada heróica é uma metáfora para o desenvolvimento de um indivíduo. Ela trata do movimento da consciência no processo de individuação. A educação do herói é o período no qual ele segue em busca de sua própria identidade. Esse processo é repleto de aventuras e perigos. Assim como no processo de individuação, o ego precisa encontrar seu caminho por entre complexos[2], conteúdos sombrios[3], fazendo contato com a anima[4] e integrando essas partes para ampliação da consciência. Esse mergulho no inconsciente é representado muitas vezes pelo momento em que o herói é engolido pelo monstro e precisa fazer um grande esforço para adaptar-se a situações adversas que surgem desse contato direto com o mundo interno.
O dragão é um motivo psicológico que representa o guardião de um tesouro que deve ser buscado por aquele que empreende a jornada do herói. Expressa o limiar entre consciência e inconsciente pelo qual o ego precisa ser capaz de transitar sem sucumbir, nem ficando imerso no inconsciente, nem sendo assimilado pela consciência, o que seria, em ambos os casos uma inflação[5]. ‘Enquanto ser monstruoso e primordial, o dragão representa ainda mais fundamentalmente a morte e o renascimento da psique[6], e portanto a transformação psíquica que se realiza mediante a experiência individual da indistinção psicológica’(Pieri).
Vencer o monstro é vencer seus desejos, emoções e instintos, lidar com complexos, assimilar a sombra e renascer para uma vida de autonomia. O retorno do herói ao seu lugar de origem é um elemento essencial de sua trajetória, apesar da jornada ser uma tarefa solitária. Apenas quando podemos compartilhar nossas experiências que elas se tornam realmente uma conquista.
Segundo Campbell, a consciência precisa afastar-se do inconsciente para depois poder retornar a ele. Como nas palavras de Jesus quando diz que para entrarmos no reino de Deus temos que voltar a ser crianças. Em verdade não podemos permanecer crianças. É preciso amadurecer, nos tornarmos um indivíduo pleno e então voltarmos a nos relacionar com a criança interior, que é capaz de entrar no reino de deus. Campbell fala em transcender a humanidade e nos re-associarmos com o poder da natureza.
A jornada do herói é um caminho gradual, educativo, que precisamos trilhar, da dependência à idade adulta, daí até à maturidade e da maturidade até o fim da vida. Essa trajetória deve ser vivida em uma existência, individualmente, ampliada para a nossa relação com a comunidade na qual estamos inseridos (bairro, trabalho, cidade, país) e novamente ampliada para alcançar o mundo em que vivemos.

A nossa cultura patriarcal equivocadamente associou o mito do herói à jornada arquetípica do homem. No entanto, apesar da semelhança entre as etapas do processo de individuação, o movimento de um psiquismo feminino tem peculiaridades que devem ser consideradas, como veremos nos capítulos seguintes nas próximas postagens.

[1] Arquétipo – É um elemento primordial da psique. Segundo Jung são sistemas de prontidão para ação e, ao mesmo tempo, imagens e emoção. São possibilidades herdadas, comuns a todos os seres humanos, impossíveis de representar, e apenas reconhecidos através de imagens, símbolos que nos chegam através dos sonhos, dos mitos, contos e histórias e só podem ser reconhecidos pelos efeitos que produzem em nosso psiquismo.

[2] Complexos – São grupos de idéias ou imagens carregadas de emoção

[3] Sombra – são os aspectos inconscientes que se opõem ao que reconhecemos como sendo nós mesmos. Os conteúdos sombrios são compostos por desejos reprimidos, impulsos não civilizados, moralmente inferiores.

[4] Anima / Animus – são complexos pessoais comumente definidos como a contraparte feminina do homem (anima) e masculina da mulher (animus).

[5] Inflação – estado que denuncia uma possessão psicológica, na qual o ego se identifica com o si-mesmo de duas maneiras: caindo no controle do inconsciente ou  se tornando supervalorizado. Segundo Jung uma consciência inflada “está hipnotizada por si mesmo, não podendo, por isso, ser questionada. (…) Paradoxalmente, a inflação é uma regressão da consciência à inconsciência. Isto sempre acontece quando a consciência toma sobre si mesma conteúdos inconscientes demais e perde a capacidade de discriminação” (JUNG apud SHARP, 1991, pág. 95-96).

[6] Psique – é a totalidade de todos os processos psicológicos. “A psique é o ponto de partida de toda experiência humana e toda sabedoria que conseguimos leva-nos, no final das contas, de volta a ela.” (JUNG)

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