Individuação – mas o que é isso mesmo?

Depois da introdução, o primeiro capítulo do meu TCC foi uma explanação do conceito de individuação, porque é o conceito central explorado no trabalho. Dessa vez não fiz nenhum recorte e reproduzi aqui o capítulo na íntegra. Então vamos entender o que é essa tal Individuação?!

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Uma vida humana é repleta de etapas e fases que marcam o desenvolvimento em diversos níveis. Biologicamente, por exemplo, uma pessoa nasce, cresce e se desenvolve, e esse processo é reconhecido através de algumas etapas como a infância, a adolescência, e a maturação física, que permite que os indivíduos se reproduzam, cheguem ao ponto máximo de seu desenvolvimento orgânico e logo passem para uma outra etapa, na qual começam a envelhecer.

 

Em sua obra, Jung define algumas etapas do desenvolvimento psicológico do ser humano, desenvolvimento esse que denominou processo de individuação. Este processo de diferenciação tem por finalidade o desenvolvimento da personalidade individual. A individuação é um processo de separação entre indivíduo e coletivo. Nesse processo a personalidade individual gradativamente se desenvolve, tornando-se única por meio do confronto entre consciência e inconsciente. Seguindo essa tendência instintiva de realizar plenamente suas potencialidades inatas, o indivíduo passa a perceber-se mais claramente, reconhecendo suas capacidades e limitações, sem buscar a perfeição e nem o individualismo.

 

Esse processo de tornar-se único é definido por expressões como “tornar-se si mesmo” ou “realização do si mesmo”, o que abre a possibilidade de um entendimento equivocado da verdadeira natureza do processo, confundindo individuação com individualismo e com uma atitude egoísta. A individuação é um movimento em direção à totalidade. A integração de opostos por meio da conscientização permite que uma pessoa conheça mais a respeito de si e expanda sua percepção consciente acerca de sua personalidade. O que aparentemente levaria o indivíduo a um maior nível de isolamento, na verdade tem justamente o efeito contrário.

 

A individuação permite que uma consciência crescente de nossa realidade psicológica aconteça por incluir a personalidade como um todo – com potencialidades e limitações. Isso, ao contrário de nos afastar do contato humano, aproxima e aumenta as possibilidades de contato verdadeiro já que nos distancia de um ideal de perfeição e nos põe em contato com nossos pontos obscuros, aplacando falsas pretensões de superioridade, nos permitindo uma apreciação mais ampla da humanidade. Segundo Nise da Silveira, “aquele que busca individuar-se não tem a mínima pretensão a tornar-se perfeito. Ele visa completar-se, o que é muito diferente.”

 

Dessa forma a individuação conduz à realização do self[1], por meio de tentativas intermináveis de combinar as imagens interiores com as experiências exteriores. Nessa relação de reciprocidade, a consciência e o inconsciente permanecem influenciando-se mutuamente numa troca onde um é condutor e o outro conduzido, alternando esses papéis incessantemente; regidos pelo self que corrobora com esse paradoxo ao ser definido como o centro e também a periferia da psique.

 

Para Jung, o objetivo da individuação só é importante como idéia, já que ninguém consegue concluir esse processo. Em essência, é o exercício constante de auto-reflexão que importa; esse exercício doloroso de ampliação da consciência é que preenche a vida com um sentido, um exercício de “fazer tornar-se inteiramente nossa intenção aquilo que o destino pretende fazer conosco”(Aniella Jaffé).

 

Já que a individuação não segue um processo linear, sendo um “movimento de circunvolução que conduz a um novo centro psíquico” (Nise da Silveira), o seu processo foi comparado como movimento do sol ao cruzar o céu. O nascer do sol é o começo da vida, a infância. O ápice do desenvolvimento se dá com a chegada do sol no meio do céu e a juventude se transforma em maturidade para logo em seguida descender até a noite, passando pelo entardecer da vida.

 

[1] Self ou si mesmo é o arquétipo da totalidade, toda a gama de fenômenos psíquicos do homem. É também o centro regulador da psique. “O self não é somente o centro, mas também a circunferência total, que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente; é o centro desta totalidade, assim como o ego é o centro da consciência”. (JUNG).

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