A Jornada da Heroína

Em 2008 eu escrevi o meu trabalho de conclusão do curso de psicologia e fiquei com esse texto guardado todos esses anos até que, depois de tantas idas e vindas, percebi que esse trabalho é a essência daquilo que amo fazer e do que desejo propor para todas as mulheres com quem convivo pessoal e profissionalmente.

Esse texto faz tanto sentido para mim hoje, 10 anos depois, que eu decidi publicá-lo aqui no blog, em pequenos fragmentos, ao longo de todo o ano. Ele será o fio condutor do meu recomeço. O meu FIO DE ARIADNE, que me permite retornar do labirinto inteira e vitoriosa.

O texto fala sobre a Jornada da Heroína e propõe que o processo de individuação da mulher é único e diferente do processo do homem, de modo que temos que estar atentas às etapas da jornada que não estão contempladas pelos mitos de heróis que costumas ser metáforas para o tema da individuação.
Isso posto, vamos ao que interessa. Fragmentos da introdução do meu TCC. Espero que seja uma leitura estimulante e que abra caminho para muitas trocas e discussões.

Com amor, Duda

 

A JORNADA HERÓICA DA MULHER

 

O tema dessa pesquisa é a diferença entre o processo de individuação do homem e da mulher. O objetivo é fazer uma leitura do mito do herói voltada para o desenvolvimento psíquico da mulher, através da análise das etapas da jornada do herói.

 

Em extensa obra, composta de 18 volumes, Jung[1] apresenta alguns conceitos pelos quais ficou mundialmente conhecido, tais como inconsciente coletivo, complexos e individuação. Este último conceito é o mais relevante para o desenvolvimento deste trabalho cujo objetivo é apontar as diferenças no processo de individuação do homem e da mulher. Fazemos isso tomando o mito do herói como metáfora para o processo de individuação, destrinchando as etapas da jornada do herói apontando as distinções entre o processo masculino e feminino, para, por fim, oferecer a mulher novas ferramentas para ampliação da consciência auxiliando o processo de individuação feminino.

 

Homens e mulheres são atores em seus processos de individuação. Embora as etapas sejam semelhantes, o desenvolvimento psíquico de cada um (homem e mulher) possui peculiaridades. Uma metáfora para esse percurso é a jornada do herói. Ao longo da jornada, que começa com o nascimento, o herói passa por muitos estágios. Cada estágio tem uma função específica para a maturação do herói. Este por sua vez é um símbolo e representa o movimento da energia psíquica que passa por muitas aventuras, enfrenta perigos, cumpre missões, é testado e prova sua força ao conquistar território e descobrir tesouros perdidos.

 

A necessidade de empreender a jornada é inerente à espécie, mas guarda diferenças entre os processos masculinos e femininos. O presente trabalho vai abordar o processo de individuação da mulher usando o mito do herói, atentando para as diferenças existentes entre a jornada heróica do homem e da mulher. Ao destrinchar as etapas da jornada da heroína vamos tentar abordar o processo de diferenciação da consciência da mulher.

 

Desse modo, pretendemos traçar uma possibilidade de jornada específica para a mulher dando ênfase às peculiaridades do psiquismo feminino.

 

 

[1] Carl Gustav Jung nasceu em 1875 e viveu toda a infância na Basiléia, onde também fez seus estudos. No campo teve uma vida pobre e enfrentou problemas escolares e de saúde. Desejava ser arqueólogo, mas optou pela medicina tendo em vista a necessidade de sustentar a si e a sua família. A psiquiatria foi um modo de aproximar-se de sua vocação arqueológica, tornando-se um ‘escavador’ do funcionamento mental, sempre pesquisando, investigando e refletindo sobre a construção do psiquismo. Concluído o curso de medicina, Jung muda-se para Zurique e dedica-se à psiquiatria, como assistente do professor Eugene Bleuler no Burgholzi Psychiatric Hospital, interessando-se preponderantemente pela esquizofrenia. Em 1906 Jung inicia seu contato com Freud por carta e em 1907 finalmente o conhece pessoalmente, numa visita que resultou em 13 horas interruptas de conversa e no princípio de uma parceria que iria durar 7 anos. Durante esse período trabalham intensamente em prol da psicanálise e em franca colaboração, mas as divergências de ideias e oposições culturais, somadas a personalidades distintas e igualmente fortes, levaram Jung a trilhar seu próprio caminho. A publicação do livro Metamorfose e Símbolos da Libido (volume 5 das obras completas), em 1912, no qual expunha seu conceito de energia psíquica (GRINBERG, 1997), selou o fim da colaboração e da parceria e levou Jung a se recolher. Só após oito longos anos ele volta a publicar novamente, a obra intitulada Tipos Picológicos, que saiu em 1920. “Poder-se-á dizer que esse livro funciona como uma compensação ao período de excessiva introversão, forçada pelas experiências interiores, pois trata-se de entender as relações do homem com outros homens, com as coisas e com o mundo.” (SILVEIRA, 1997, pág. 17)

3 Comentários

  1. Nara disse:

    Que maravilha poder conhecer o seu trabalho de conclusão/iniciação nessa jornada de heroína, Duda. Está sendo muito rico para mim pois tem uma sincronicidade acontecendo e processos em minha vida me levando também a um recomeço. Porém ainda estou avaliando como me sinto diante disso, pois o primeiro impacto não foi bom. Começo a (re)ver o que foi ficando pra trás mas sempre dá um jeitinho de aparecer. E penso que esse é meu fio de Ariadne e cuja ponta preciso retomar. Gratidão por essa partilha. Não faz ideia de como está servindo para o meu processo também. Gratidão!!

    • Duda Dorea disse:

      Gratidão, Nara!! Fico muito feliz de saber que temos tantas coisas legais em comum e tantas coisas que podemos partilhar. Escrever e postar sobre a minha jornada nem sempre é fácil e quase sempre exige muita coragem, mas também é muito libertador e faz muito sentido para mim, por isso sigo aqui fazendo esse trabalho que amo. A melhor parte é saber que está sendo útil para você. Beijo!

      • Nara Oliveira disse:

        Decidi compartilhar aqui com esse objetivo mesmo, que vc saiba que toca sim outras pessoas com esse relato. Isso me lembra o que Jung diz que verdadeiramente nos transforma. O estudo é muito importante, mas diante de uma alma humana sermos apenas outra alma humana. Isso é sempre transformador. 🙂 Quem sabe eu viro blogueiro há também kkkk. Tenho uma ânsia de comunicar muitas coisas, mas ainda sou bem resistente a vídeos, e não tive disciplina para manter um blog. Por isso vou devagar observando o próximo passo. Abraços

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